Vivi longos dias na sombra do nada,
Temendo, na carne, outra dor a sangrar;
Meu peito, cansado de ilusões passadas,
Negava-se, em vão, a de novo amar.
E, no entanto, hoje — que estranho delírio —
O céu se derrama em um tom mais azul;
Há paz nesta alma que outrora era exílio,
Como um doce engano que a dor já não quis.
Quisera, ao menos, ouvir-te distante,
Num fio de voz que me fizesse viver;
Saber dos teus dias — do mais insignificante —
Como quem busca um motivo pra crer.
Prometo-te afetos, constância, lealdade,
Promessas que faço sem nada exigir;
Pois mesmo na ausência, na dor e na saudade,
Há festa em meu peito só por existir.
E dizes — ou calas — que amor não persiste?
Como negar o que em mim se acendeu?
Se em cada minuto, na vida mais triste,
Teus olhos retornam — e o mundo sou eu.
Ah! Mesmo distante, és chama que invade,
Teu nome murmuro na solidão;
E passo meus dias, na doce saudade,
Vivendo de ti — sem tua mão.