Será que em segredo lês estes versos
Que da minh’alma exsudam, febris, tardios?
Não guardo mais o orgulho — esse detrito
Que o tempo rói nos ossos do vazio.
Entrega-o todo a ti! Nada reclamo.
Somente deixo, em letras natimortas,
Esta epístola vil, de sangue e lama,
Que a dor compôs nas páginas absortas.
Volver pudera eu àquela noite antiga —
Talvez fugisse à órbita em que te vi;
Talvez seguisse só tua advertência,
E ao ermo regressasse — sem ti.
Mas esta história, abortada na memória,
Nasceu já condenada ao esquecimento.
Quem sou, afinal, para lutar
Contra a sentença atroz do firmamento?
Recebe, pois, ó flor de breve abril,
Estes versos — resíduo do que fui —
Para que um dia, em dez invernos passados,
Recordes o delírio que me rui.
E saibas, quando a névoa do passado
Pairar nos átomos do teu caminho:
Que um inconsequente, enfermo de esperança,
Passou por ti… e seguiu sozinho