Ao meu avô

Creio que foi tão viva vossa presença
Que nunca pude sentir vossa partida;
Em mim vos sinto — força e permanência —
Como raiz oculta em minha vida.

Passou já tempo desde o vosso adeus,
E ainda assim em mim permaneceis:
Nos erros que tropeçam passos meus,
Nos gestos bons que outrora me ensináveis.

Não sei dizer onde começo eu,
Nem onde vós em mim vos prolongais;
Pois muitas vezes julgo ser quem sou
Somente a soma do que me deixais.

Ó vida dura, áspera e severa,
Que leva um a um quem nosso peito ama;
Deixa no peito a solidão sincera
E a memória ardente que não se apaga.

E lembro então da infância em que eu vos via,
Com vosso elmo de honrado construtor,
Mostrando ao mundo, entre cal e ferraria,
Que o labor também edifica o amor.