Vinte dias contei — não ao tempo infiel,
mas a mim mesmo, em círculos de sombra.
Vinte giros da alma sobre o próprio eixo,
qual astro fatigado em céu sem nome.
Vinte noites sem sono, ou mal dormidas,
em que o corpo jazia e o espírito errava.
Vinte desculpas vãs teci ao pensamento,
vinte razões erigi para a renúncia.
Vinte vezes ergui os olhos ao acaso,
buscando em rostos alheios teu paradeiro;
vinte passos recuei ao chão pretérito,
onde o erro ainda fingia inocência.
Vinte bofetadas deu-me a razão severa,
para que, enfim, despertasse à vida crua.
Vinte rascunhos tornei pó sobre a mesa,
e em cinza reduzi promessas líricas.
Vinte cânticos novos nasceram cativos,
e cativos morreram antes do alento.
Vinte goles de absinto, verde e amargo,
destilei como bálsamo e punição.
Vinte lágrimas verti — não de pranto vil,
mas de pasmo ante o engenho do delírio.
Vinte provas coligi, frias e exatas,
de que tudo é artifício e engano.
Vinte dias concedi ao malogro iminente.
Vinte segundos houve — raros, suspensos —
em que teu nome não me ocupou a mente.
Vinte culpas confesso por ter-te avaliado,
como se o afeto coubesse em cifra e peso.
E deixo, por fim, estas vinte palavras soltas:
não para olvidar-te — que isso é quimera —
mas para jamais tornar a pensar em ti.
