Sem Nau

 

Não canto já de amores brandos e leves,
nem de suaves risos concedidos em praia calma;
canto do peito que, em mar revolto,
ousou tomar por astro
o lume breve de um olhar humano.

Ó Ninfa errante, se de Tétis filha
ou de Calipso herdeira do engano,
que em Maceió erguestes vosso trono
sob o sol de ouro e brisa morna,
escutai agora o que não disse o riso.

Foram vossas palavras,
brandas como velas ao vento manso,
que em meu costado se fizeram inscrições eternas:

“Grato sou pelas músicas.”
“Pelos versos e folguedos.”
“És engenho raro, mente clara.”

Ó louvor doce!
Ó mel que encobre o ferro!
Que mais fere o elogio sem promessa
que a recusa franca do afeto.

Eu, qual capitão de armada incerta,
julguei ver porto onde era apenas espuma;
julguei ver sinal onde era só bruma;
julguei ver destino
onde era só caminho vosso.

E quando, à popa do entardecer,
vos vi tomar a estrada firme —
erguida, altiva, justa em vosso intento —
disseis, qual sentença de Oráculo severo:

“Recebo com carinho e respeito.
Não aceito menos.
Sigo na minha estrada.”

Assim falou Fortuna
pela vossa boca serena.

E ergueu-se em mim o Adamastor da perda,
monstro não de pedra,
mas de consciência tardia;
que bradou, das entranhas do sal:

— Não era porto, era miragem!
Não era pacto, era cortesia!

Partistes.

Levastes convosco o sol que me guiava,
o ar fresco da manhã que me alentava,
o rumor doce de esperança
que, sem vossa ciência, eu edificara.

Fiquei eu.

Fiquei no convés,
entre mastros rangendo
e velas frouxas de sentido,
aprendendo que nem todo astro
é feito para guiar navios.

Mas se em mim resta engenho e verso,
não será para implorar retorno,
nem para amaldiçoar a vossa senda.

Cantarei.

Cantarei do homem que,
sem haver tocado o porto,
já aprendera o peso do mar.

Que maior conquista há
que vencer, não o mundo,
mas a si mesmo?

E se o Fado me nega vossa enseada,
que ao menos me conceda
vento bastante
para seguir.