Roda da Fortuna

 Assim se faz esta trilha, ó musa,

este breve suspiro a que chamamos vida:

diante de ti surgirão sendas diversas,

e, presa às condições do tempo que te rege,

escolherás — não o melhor,

mas o possível.


Em meu delírio, quis dobrar o fado,

reordenar os astros,

forçar a mão invisível do destino

para te assentar, inteira, ao meu lado.

Mas sei — e sei demais —

que tal poder não me foi concedido.


Assim, na roda muda da fortuna,

seguimos:

cada qual portador de sua sina,

cada passo medido por forças que não pedem licença.


E, ainda assim, confesso —

houve um instante

em que o mundo pareceu suspenso,

e nós, livres da ordem das coisas,

poderíamos ter ido além,

muito além do que ousamos.


Esse além, porém,

não nos foi dado viver:

coube-nos apenas reconhecê-lo —

e perdê-lo.