Unhas amarelas, mãos perfeitas —
ó musa errante, serva de Apolo —
levastes minha razão
com a luz nos dedos
e o silêncio como lei.
Cada unha, um sol mínimo;
cada mão, um desmentido
à prudência dos homens.
Minha razão — tão certa de si —
ajoelhou sem resistência.
Vós que servis ao deus da forma,
ensinastes ao meu olhar
que a beleza não pede abrigo:
ela exige rendição.
No indicador, vosso juízo aceso;
no médio, o tempo em suspensão;
no anular, o círculo antigo
onde o passado aprende a não doer.
E eu, tomado por vossa harmonia,
já não sei se foi desejo ou destino
o que me fez perder o rumo —
sei apenas que, desde então,
penso com os olhos
e sinto com as mãos.
Ó musas de Apolo,
não me devolvais a razão.
Deixai-me assim:
perdido o bastante
para chamar isso de amor.