Eu vi, pela fresta da porta,
que você ainda o ama.
E eu estarei na sala,
tocando a nova música da sua vida,
paciente,
complacente.
Nem sempre as coisas saem como desejamos.
Eu queria arrancar a dor do seu olhar,
alisar o cansaço dos seus olhos bonitos
e deixar você dormir
depois desse longo inverno.
Eu vi, pela fresta da porta,
o peso brutal dessa escolha.
Estarei sentado no banco do lado de fora
da sua casa.
Talvez o próximo ônibus me leve embora
e tudo isso vire apenas
uma lembrança pequena
— mas verdadeira.
Nem sempre as coisas são justas.
Eu queria segurar suas mãos
e puxá-la para fora desse tornado.
Eu queria tocá-la naquela madrugada
em que o silêncio pesa mais que o sono,
para que você pudesse, enfim,
descansar.
Eu vi, pela fresta dos seus olhos,
as lágrimas que você esconde
e nas linhas tortas das tuas mãos.
Eu estarei ali como um suspiro:
numa tarde de céu azul,
tocando uma flor de campo
em pleno verão.
Não te desejo como deveria.
Tenho, antes, complacência
pela sua dor,
pelas lágrimas agridoce,
pelos lábios tingidos de álcool
e de despedida.
Quando meus rastros na areia
forem apenas vestígios arqueológicos,
saiba:
eu quis ver seu riso,
sua risada espontânea,
em cada gesto meio bobo
que inventei
para te deixar melhor.
Eu sempre estarei
em algum banco à beira da estrada,
no vento quente que sopra
essas tardes ligeiras
que o verão consome
sem pedir licença,
neste singelo adeus!
