Ode ao Futuro Amor

Em parte incerta do mundo nos achamos,
onde o destino, lento, tece os encontros,
e o tempo aprende a repetir instantes
já prometidos.

Num sítio ameno, à borda do salgado,
onde o ar quente repousa sobre os olhos,
vemos passar, em águas sempre mansas,
um só veleiro.

Tu te reclinas onde o mar, com doçura,
beija a areia em antigo e mudo rito;
banham-te os pés as lágrimas do oceano
sempre fiéis.

Contemplo a pele clara que se entrega
ao toque leve e casto da areia,
e os próprios braços — círculo perfeito —
guardam-te o corpo.

O céu, sem nuvens, puro e longínquo,
pinta o cenário justo da beleza:
nada em excesso, nada em desalinho,
tudo repousa.

Gaivotas cruzam livres sobre o abrigo
onde se aninha o pressentido amor;
teus anéis brilham — selo e juramento
do que virá.

Ó cena ainda ausente do presente,
mas já inteira em cada átomo do mundo,
forjada em sóis nas fundas caldeiras
da criação.

Como desejo a pele aquecida
pelo sol alto da praia deserta,
onde o futuro enfim repousa nu
e sem defesas.

Mas ora estou só, preso ao tempo curto,
lutando em vão contra a memória viva
do teu olhar na noite em que minha ordem
foi devorada.

Desde esse instante, o verso me sustenta:
esperar é também forma de amar;
e quem deseja aprende, com o tempo,
a ser silêncio.