Probo Caminheiro

Qual será minha coerência,
douta senhora, serva da Lei severa?
Que regra me governa o peito errante,
se em mim razão e afeto fazem guerra?

Que sou eu, senão probo caminheiro
por chão vil, gasto em pó e desventura,
buscando em vós — cruel e alto roteiro —
o fim do ser, o nome e a própria altura?

Sou nobre em queda, e desgraçado em sina,
musa que negais ver no meu olhar
o resto vil de quem ontem, sem doutrina,
esperava apenas cova e olvido amargo estar?

Não vedes vós, nos olhos já feridos,
o moribundo que, por vós, revive?
Pois mesmo morto em sonhos já perdidos,
vosso olhar distante ainda o cative.

Olhai, senhora, quanto já servi
a outras musas, sombras sem verdade;
olhai quantas batalhas já perdi
tentando amar com falsa lealdade.

Busquei no escuro o lume do querer,
quis sentir-me amado, ainda que em erro,
mas toda a glória que pensei ter
foi pó levado ao vento do desterro.

Que coerência pode haver, enfim,
num homem desta mísera espirpe humana,
se em vós se perde, e longe de si,
faz da contradição sua lei tirana?