Não vês, pestilento coração,
que outra alma aporta em teu caminho?
Não vês, pestilento coração,
a moçárabe que jaz à tua frente,
inteira em silêncio,
como um presságio antigo?
Deixas a musa errada de verão,
essa que apenas cuida do que já sangra
e chama zelo
ao hábito da dor.
Não vês a beleza destes olhos,
negros como o mar de inverno
no estreito de Gibraltar,
onde naufragam certezas?
Estes lábios que transcendem
e paralisam qualquer douto explorador,
feito astrolábio inútil
diante do abismo?
Ó mundo cruel!
Ó mundo cruel!
Meu coração partiu para Maceió,
levado por ventos quentes e ilusões salinas;
mas um anjo surgiu diante da minha face
e roubou-me o fôlego.
Que faço?
Que faço,
douto e pestilento coração?
Deixaste-me em cova rasa,
na cicatriz da vitória —
doca pálida da moçárabe confusa,
da doce e rara beleza.
E aqui jaz, enfim, em paz,
não por redenção,
mas por exaustão:
este pestilento coração.
