Ó maldição dos astros celestes,
por que me assedias, quando eu suplicava
a paz do jazigo vil, mudo e esquecido,
onde a alma repousa e nada deseja?
Por que esta sina adversa?
Rogo-te um só sopro de lúcida trégua,
mas ei-las —
ah, ei-las ainda — aquelas mãos,
a nudez pálida das unhas bege,
e os cabelos que, em queda mansa,
beijavam-lhe as costas,
como a espuma salobra afaga, paciente,
as rochas severas do penhasco marinho.
Por que fizeste morada, ó flagelo,
nesta minha alma espessa e paquidérmica,
eu, ser pestilento e formoso,
súdito de Baco e de seus ritos noturnos,
onde a razão se embriaga e abdica?
Dize-me, pois, que fado é este:
que ninfa errante —
talvez nascida do engenho de Ulisses
e do encanto funesto de Calipso —
aportou em minhas naus sem convite
e me fez cativo,
qual troiano vencido após a chama.
Que maldição é esta
que me entrega o coração, vicioso e febril,
às mãos de uma desconhecida,
encerrado em frágil redoma de vidro translúcido,
onde tudo se vê,
mas nada se salva?
