Louvor a musa

Negras pantalonas,
brancas como a hóstia antes do toque,
marca dos novos tempos,
mas pisando o mundo com a displicência
das ninfas que não pedem licença.

Trajava, sobre o torso claro,
uma túnica curta de amarelo solar,
tecido singelo, quase herético,
como se o próprio dia
houvesse decidido repousar-lhe sobre o peito.

As unhas — ó prodígio mínimo —
tingidas do mesmo ouro jovem,
relampejavam como selos de pacto,
firmados entre a carne e o desejo.

Os calções, negros e breves,
guardavam a modéstia possível
aos que nasceram para desordem bela.

Três anéis lhe cingiam os dedos
— tríplice juramento não pronunciado —
enquanto, na orelha,
uma pedra verde, viva e mineral,
lembrava que a terra também observa.

O olhar…
ah, o olhar de amendoeira madura:
oblíquo, morno, perigoso,
capaz de abrir fendas
onde a razão jurara muralhas.

Pintas disseminadas pela epiderme
como constelações errantes,
mapa celeste de uma astronomia íntima
que só os atentos decifram.

No punho direito,
uma pulseira de prata —
lua domesticada, dócil,
cativa do gesto.

No esquerdo,
o relógio: tirano do tempo,
acorrentado ali para fingir controle.

E, como selo final da obra,
uma pequena marca sobre a sobrancelha direita:
ponto de feitiço,
erro divino proposital,
assinatura do acaso
na carne eleita.