Eu, que por mercê dos céus
e por descuido do peito,
atrevi-me a lançar intento
sobre empresa tão delicada,
Atesto, para os devidos fins
— e se preciso, sob juramento —
que dou por finda a demanda
da aposta que me prendia.
Declaro pública e brandamente
que desocupo, sem litígio,
a morada que ambicionei
em vossos lábios de coral,
cujo fulgor me foi promessa
e nunca posse.
Outrossim confesso:
vencestes vós, senhora,
não por armas,
mas por ausência.
E como não viceja trigo
onde o chão é pura aridez,
assim não medra afeição
quando o deserto é decreto.
Nem toda semente,
lançada em terras quentes,
acha água que a redima.
Por isso recolho-me,
como ermitão de afetos,
aos aposentos da vida comum,
onde a luz é pouca
e a sombra é companhia.
Ali firmo clausura voluntária,
não por rancor,
mas por ciência
de que nem todo desejo
é nave destinada a porto.
E rogo, por derradeiro,
que encontreis em vosso leito
alma que vos preserve
a beleza incólume,
aquela mesma
que um dia me fez crer
em primavera sobre dunas.
E para que conste,
lavro o presente
não com tinta,
mas com silêncio.
