Cecília

Cecílias nascem presas às madeixas

dos teus cabelos —

escorrem em vértices lentos

pelas costas cobertas,

como beijos antigos

de Calipso em Odisseu.


Não escrevo este canto para o teu choro,

mas para tocar-te a alma.

Cecílias nascem dentro

da tua mente em vigília,

onde o desejo luta

com o canto de Orfeu.


Não escrevo para que chores.

Escrevo para que te encantes,

para que contemples

as palavras mais belas

que descem ao teu ventre

como música encarnada.


Cecílias nascem —

na nau de Odisseu,

no mar revolto do tempo.

Soltam-se das amarras,

e enfim encontram

aquilo que sempre foi seu.