Canto Lapidário

Não celebro o ímpeto vulgar do sangue,

nem o desejo em turba desmedida;

louvo a ordem serena, o traço exangue

da forma em clausura esclarecida.


Amo-te as falanges longiformes,

onde o metal depura a própria luz;

nelas, os círculos — castos e conformes —

seguem a lei do eixo que os conduz.


Cada aro, em seu perímetro exato,

obedece à razão do movimento;

não há excesso, nem brilho insensato:

há cálculo, silêncio e assentamento.


E onde o corpo, em tácita aliança,

negocia o contato com o terreno,

venero os astrágalos, na elegância

de um gesto que se impõe sem ser pleno.


Ali, as filigranas, quase etéreas,

tangem os maléolos com pudor;

são linhas submetidas a geometrias,

não ornatos de vício ou de ardor.


Nada constrange, nada submete ou pesa;

o adorno conhece o exato limite

entre a fria ciência da beleza

e a contenção que a eterniza e a permite.


Assim te adoro — em philia abstrata,

amor que mede, escolhe e contempla;

sou desses que preferem a forma exata

à chama breve que tudo destempera.


Pois há corpos talhados para o excesso,

e outros — raros — para a contenção severa;

em ti, o gesto é mármore expresso,

e o belo reina em lógica austera.