Ignota esperança

Sente o cheiro —
não é perfume dado,
nem artifício doce da vaidade;

é sopro novo,
é risco anunciado,
é o ignoto respirando à proximidade.

É mistério que chama em voz suspensa,
é pressentir sem forma ou definição;
é a intuição —
minha íntima sentença,
oráculo mudo do meu coração.

E ainda que nada venha a ser,
e ainda que o fruto, prometido,
não se deixe colher;

mesmo assim —
o ar mudou de sentido.

Sente o cheiro:
é um afeto errante
que percorria corredores e passagens,
sem rogar licença,
sem pedir guarida,
como quem sabe de antemão as margens.

Só por tornar a viver tal estado,
ergo um brinde secreto à existência:
pois o peso antigo, o olhar cansado,
cede lugar à breve insurgência.

O pessimismo,
a míngua da estima,
foram solapados, vencidos no chão,

pela esperança que exala e anima,
pelo aroma da ocasião,
pela excitação —
fogo discreto —
que acende o espírito da exploração.

Nasce então o desejo, contido e atento,
de saber como estás,
de saber o que pensas,
sem ferir, sem tomar, sem atravessar o tempo.

A simples vontade —
e nisso me detenho —
de apenas te admirar,
em silêncio pleno;

de ouvir teus ditos leves,
tuas graças passageiras,
de ler tuas falas breves
ou, como nomeias,
tuas "zoeiras".

E perceber, por fim,
sem alarde, sem artifício algum,
que só isto —
tão mínimo —
já transmuta tudo em comum.