Ars et Memoria

Eis que talho, a cinzel frio e mão severa,
Vocábulos dispersos na matéria austera;
Sílabas que o engenho, em vigília tardia,
Ordena e submete à férrea simetria.

Não rogo escuta fácil, nem dó complacente:
Peço apenas juízo calmo e diligente
À leitora afeita ao rigor da medida,
Que atravessa o verso como lâmina erguida.

Imersa estás na urdidura dos próprios dilemas,
Cercada por pendências, labores, problemas;
Que motivo terias — pondera, afinal —
De ouvir este vate errante, sem porto nem sal?

Sombra fora do tempo, por sorte lançada,
Cruzo-te o passo na urbe densa e abrasada;
Não me consome o fogo de um desejo vulgar,
Mas o excesso do mundo a ferver sem cessar.

Escrevo por ofício, não por vã esperança;
É da palavra o peso, não da confiança.
São gritos filtrados por lúcida razão,
Depurados no crivo severo da mão.

Que a posteridade, árbitra fria e tardia,
Saiba quanto admirei — sem ruído ou poesia —
Teus olhos, teu gesto contido e suspenso,
A pose fixada no instante mais denso.

Se a Fortuna, um dia, em cálculo antigo,
Conceder-me provar — sem ardor nem perigo —
O sabor de teus lábios, não será desvario,
Mas forma perfeita a cumprir seu desígnio.

Pois tua presença, exata e contida,
Basta por si — completa, inteira, medida;
Não excita a vertigem, não clama, não chama:
Apenas ordena, sustém e emoldura a chama.

Após quarenta giros do sol soberano,
Nada peço ao acaso, nada imploro ao humano;
Se um dia meu nome em ti tornar a soar,
Que seja memória, não ânsia a sangrar.

E lembres, sem júbilo, sem voz, sem clamor,
Que ninguém te guardou com mais sóbrio rigor.

Ninguém.