Cerrado

Assim a vida me presenteou,
assim — só — me presenteou.
Trouxe-me ao cerrado,
a desabrochar sob o astro escaldante.

Assim a vida me presenteou,
louco, só, embriagado pelo aroma —
o aroma da jataí, da fruta-do-lobo,
do congestionamento abrasador...

Assim a vida me presenteou:
fabricando memórias,
vivendo, após quatro décadas,
o cheiro do mato e das queimadas.

Assim a vida me presenteou:
longe dos meus, dos teus,
dos nossos herdeiros,
no crepúsculo dos dias.

Assim a vida me presenteou:
entre sorrisos, cores e jeitos,
presenteou-me sereno,
empurrando os dias…

Presenteou-me com a fava,
com a baga,
com o sabor
da pimenta-caiena,
do tempero agridoce,
da banana-da-terra,
do latino incessante,
da capital com ar de interior.