Canto da Nação Sem Memória

Salve, salve, ó minha gente tão querida,
com vista turva, deste Atlântico vos escrevo;
de um povo heróico, em glória já perdida,
que de seus feitos pouco hoje percebo;
dos bravos ecos resta a voz sumida,
e o nome antigo em névoa quase levo;
será feitiço de Ganga Zumba a prender?
ou renascer do néscio a nos vencer?

Salve, salve, ó minha gente tão querida!
De Cunhambebe, Sepé Tiaraju e Ajuricaba,
dos rincões de Nheçu, memória esvaída,
perdeu-se o brio que outrora se erguia;
a farsa antiga em silêncio é mantida,
e o povo ignora a própria rebeldia;
no vice-reino do Peru, sem clamor,
Túpac Amaru II já não tem valor.

Salve, salve, ó minha gente tão querida!
Da negritude, quantos nomes vão à sombra:
André Rebouças, José do Patrocínio, Luís Gama,
que a história esquece, e o tempo assombra;
e as mulheres — de luta tão erguida —
Ana Néri, Bárbara de Alencar, Clara Camarão,
Luísa Mahin, Maria Quitéria — e Isabel do Brasil, por fim —
que o tempo cobre em véu sem clarim.

Salve, salve, ó minha gente tão querida!
Repetem cantos vãos, sem nova história;
um povo em dor, na lida consumida,
busca heróis de papel, sem luz nem glória;
sem feitos, sem valor, sem honra erguida,
ecoam nomes ocos de memória;
e assim se perde o norte e o próprio fim,
na ausência do que outrora houve em si.

Na terra dita do futuro — eu clamo,
dias e noites, por memória viva;
que se resgate o nome, o feito e o ramo
de história que nos torna gente ativa;
e que não mais se curve ao vil reclamo
de glória falsa, torpe e fugitiva;
almejando um porvir que enfim se erga:
salve, salve — se a memória se preserva.