Último ato

Colhe o dia, dizia Horácio;
concentra a tua vontade.
Ressignifica o elo com a morte:
podes viver sem ansiedade?

Esvazia-te — sem receio
da hora da travessia;
pois quem teme o fim da estrada
jamais contempla o dia.

Diva, açoita as expectativas
de licorosa ilusão;
inventa, como quem pensa
ter o tempo em suas mãos.

E então descobrirás, tarde,
na vertigem mais profunda:
não há todo o tempo do mundo,
nem relógio que o redunda.

Modula os teus próprios atos
como quem trava, em verdade,
a última batalha na Terra
contra a própria fugacidade.