Carta a Ulysses

Ó Ulisses, senhor de astúcia e brio,
na terra tua a cousa vai sombria;
crescem jargões, promessa em desvario,
e a res pública afunda em agonia;
Momo, que viu a máquina em desvio,
bradou: “falida está!” — triste ironia;
e a tal democracia, em vã licença,
deu curso à arte torpe da malícia.

Onde o nome público era decoro,
vende-se hoje ao preço de ocasião;
o homem público faz do cargo um foro
de trato escuso e baixa transação;
já dantes tinha nódoa tal tesouro,
mas hoje é nódoa feita instituição;
século este — não de luz, mas chalaça —
ante o de Péricles, que nos ultrapassa.

Nem os edis confiam no que juram,
nem creem na obra que prometeram;
o mundo em caixa vil já configuram,
qual resto vão que às ruas despejaram;
não me julgueis dos tristes que murmurem —
sou dos que veem e nada alteraram;
calados, vendo o vício que domina,
deixam correr a máquina assassina.

Gozam prestígio entre iguais — e nada
de respeito colhem do povo inteiro;
não fora útil selo ou figurada
imagem que lhes desse algum roteiro;
vivem do erário em mesa aparelhada,
de regalias fartas por dinheiro;
e a rua sentencia, sem disfarce:
— político é mão leve e nunca se farte.

E, sendo unânime a voz que assim ecoa,
há quem, benigno, ainda os absolva:
— “ajudam, sim!” — diz outro, e então ressoa
o vil escambo que a virtude envolva;
gás, roupa e pão — que a troca boa soa,
mas torna o voto em dívida que revolva;
— “deu-me tal cousa, pois votei primeiro!” —
mercado infame do público dinheiro.

Ó Senhor das Diretas, chama antiga,
que acendeu nesta praça alguma fé,
correm histórias — praga que castiga —
em vídeos, risos, memes, como é;
a cada esquina a nódoa se multiplica,
e o caso vil se espalha, de pé em pé;
até a pedra bruta da calçada
já foi moeda torpe em troca dada.

Telhado caro, cargo remendado,
metade alheia em soldo repartida;
em cada canto um vício revelado,
e o roubo em norma já estabelecida;
e neste giro manso e perfumado
de aparência pia e cor polida,
concluo a carta, exausto de tal sina:
virtude aqui é máscara assassina.

À Constituição — de que foste pai —
já não concedo a fé que me ensinara;
o prólogo ressoa, e nada sai
que valha à chaga que a cidade ampara;
e assim concluo, sem temor que cai,
que quem tal sistema antes julgara,
talvez não fosse louco no que disse:
que o vício nasce junto ao que o instituísse.